quarta-feira, 11 de junho de 2014

NUM BAILE DE COLA FINA

Num baile de fim de ano
Me trajei de cola fina
Me preparei pras meninas
Como que vai pra um casório
Botei até suspensório
Pra ficar mais elegante
Mais parecia um infante
Em noite de foguetório

O tal baile era muy lindo
Num clube bem refinado
Eu que não tava acostumado
A frequentar tal lugar
A indiada de par em par
Chegava, enquanto eu  solito
Louco pra dar um grito
Para espantar o azar

Eis que a música começa
E se inicia o banzé
E eu meio no contra-pé
Com medo de me mexer
Fiquei esperando pra ver
O que na volta acontecia
Pois assim entenderia
E saberia o que fazer

Enquanto a banda tocava
Fiquei mirando o salão
Num canto, na contra-mão
Procurando alguma china
Dessas de longa crina
E boas de arrasta pé
Pra me mostrar como é
Que dança um cola fina

Eu estava meio deslocado
Pois só conhecia fandangos
Se ao menos tocasse um tango
Me sentiria a vontade
Com minha identidade
Na elegância dos passos
Envolvendo nos meus braços
Uma paixão de verdade

Quanto mais eu esperava
Mais eles tocavam rock
E eu pensava: Toca um xote!
Pra eu chacoalhar os quartos
Mais parecia um parto
Essa minha longa espera
Pois nada é pior pra um qüera
Estaqueado feito um lagarto

Eis que toca um bolero
E eu me aligeirei na sala
Rápido  feito uma bala
Peguei uma prenda do braço
Volteando bem no compasso
Me esparramei no salão
Enquanto lhe apertava a mão
Ia procurando espaço

De pronto ela percebeu
Que eu era um índio xucro
E que já tava no lucro
Por ter dançado com ela
Mas quando o amor atropela
É difícil regatear
É hora de enfrentar
E atravessar a pinguela

E assim veio outra música
Depois outra e mais outra
E ela feito uma potra
Me levava do seu jeito
E eu no osso do peito
Dançava como podia
Enquanto ela sorria
Achando tudo perfeito

E assim passamos a noite
Dançando e proseando muito
Lhe falei do meu intuito
De levá-la num fandango
Ela firme como um mango
Na hora aceitou o embate
E disse: Não me maltrates
E vamos dançar esse tango!

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